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| CAPÍTULO 7- CHAMAS DE AMOR E DE GUERRA | |||
O som dos dedos que se encontravam com um teclado se fazia ouvir por toda a sala silenciosa, juntamente com o rangido do funcionamento de uma ou outra máquina, promovendo uma sinfonia incessante e monótona que já durava alguns dias. O barulho dos dedos que encontravam teclas apenas parou quando a pessoa que digitava olhou fixamente para a tela, lendo com um sorriso de satisfação os dados que havia conseguido depois de tanto trabalho: - Acho que terminei... Essa pessoa passou os dedos de leve pelos cabelos azul-claros e espreguiçou-se, enquanto seus olhos passeavam pelas máquinas que trabalhavam na sala. Sua análise tinha terminado, agora era só ajustar os detalhes finais para sue plano estar pronto! Teria de sacrificar um servo se queria continuar, mas perdas eram inevitáveis se queria ganhar uma batalha. Tinha elegido como prioridade o despertar da Mestra e somente quando estivesse próxima de atingir esse objetivo começaria a articular-se para destruir os Pirate Knights, tanto porque teria o apoio e auxílio dela quanto porque certamente receberia a patente de general, o que abriria ainda mais portas e definitivamente faria com que não tivesse de prestar contas a ninguém, exceto à Mestra. Mas, enquanto tinha de prestar contas àqueles dois idiotas, tinha de sujeitar-se a eles... Não, sujeitar-se não era a palavra que procurava... Iria apenas tolerá-los. E por falar neles, os generais entravam na sala. Sílica e Cuprum tinham uma expressão inquisitória, procurariam qualquer erro e defeito, por menor que fosse e parecesse, nos planos da subordinada: - Senhores, eu gostaria de pedir permissão para requisitar os serviços de um servo. - Para quê?- Perguntou Cuprum. - Ora, para quê! Para absorver energia humana! “E nesse processo ser morto... Mas é isso mesmo o que eu quero, infelizmente”, Aneurocito não pôde deixar de pensar. - E dos serviços de qual servo você gostaria?- Sílica perguntou. - Existe algum nos calabouços que esteja condenado à morte, mas que tenha um bom treinamento? - Smelly- disse Cuprum após alguns segundos de raciocínio. - Então quero seus serviços e se ele for bem-sucedido quero que seja perdoado, qualquer que tenha sido seu crime. - O que é isso, virou uma pacificadora agora?- Sílica perguntou ironicamente. - Se me pediram um plano, não me contestem. - Tudo bem.- disse Cuprum, irritado. - Smelly, apresente-se! Instantes depois, um servo que parecia uma árvore estilizada na forma humana, com a pele parecendo a casca de uma árvore e longos cabelos formados de heras apareceu. Cuprum disse, um pouco irritado: - Você obedecerá às ordens da Aneurocito. - Então, Smelly, que nos teleportemos para Tóquio- disse Aneurocito. - E por que não resolve seus planos aqui na sala de controle? Vai gastar energia à toa?- Sílica perguntou, irritada. - Porque eu quero, além disso sei muito bem o que estou fazendo- disse Aneurocito, pouco antes de se teleportar juntamente com seu servo. Sílica olhava com raiva para o espaço vazio deixado após a partida da subordinada, assim como Cuprum. O que era isso agora, insubordinação? Será que Aneurocito tinha esquecido quem era e com quem estava lidando? O general disse, enquanto olhava para a tela de alguma das máquinas, sem se importar muito com o que havia ali: - Acho bom aquela garota ter cuidado... Insubordinação é crime e se ela continuar com esse tipo de comportamento será severamente punida. - Que ela conclua seu plano antes disso, assim teremos menos trabalho- disse Sílica. - Às vezes acho que não foi uma boa idéia termos deixado tudo nas mãos dela... - Agora não temos como voltar atrás... - E nem temos energia para mandar nosso próprio servo para lá... Ao invés das usuais gargalhadas que já eram marcas registradas dos generais, dessa vez apenas muxoxos e suspiros de lamentação foram ouvidos. Ao mesmo tempo em que queriam o término do plano de Aneurocito, que a Mestra fosse logo despertada e tudo se esclarecesse, desejavam ardentemente que tudo desse errado à subordinada, que ela fosse derrotada o mais humilhantemente possível... *** Ryo passeava pelo pátio de sua escola, ora observando um ou outro casal que se escondia no meio das folhagens para namorar, ora um ou outro colega que passava com um livro debaixo do braço, provavelmente saindo de uma sessão concentrada de estudos. Na verdade, não sabia exatamente o que estava fazendo ali com seus livros todos em sua mochila... Aliás, sabia sim, estava esperando Rika sair do seu treinamento junto ao clube de esgrima e os participantes não gostavam muito de platéia... Aproximou-se da janela da grande sala onde praticavam, talvez para ver alguma luta, mas mais provavelmente para procurar com os olhos Rika e certificar-se de que tudo ia bem com ela. Graças ao equipamento que não fazia com que os jogadores se diferenciassem, não sabia exatamente qual deles era Rika, mas podia ver uma figura alta e esguia seguida de outra um tanto mais alta e eles iriam lutar. A figura um pouco menor era muito ágil e defendia-se e atacava em uma rapidez que tornava até difícil ao observador perceber o que estava acontecendo... - A gaijin nunca vai vencer Akio-sempai... Ryo olhou para o lado com o rabo dos olhos: Kyoko tinha acabado de sair do treino das líderes de torcida, inclusive vestia-se ainda com o uniforme do clube e segurava o bastão das acrobacias. Era incrível, ela estava naquele clube desde a quarta série e muitas daquelas amigas que a pajeavam vinham de lá e estavam ali somente por ela... - Sakamoto-san... - Não entendo como você consegue conviver com essa menina, Kage-san! - E eu não entendo como consegue não gostar dela sem nunca terem sequer conversado- foi a resposta. Ryo sentiu um calafrio pela espinha após dizer essa frase. Nunca, desde que entrara na mesma classe de Kyoko e isso aconteceu na segunda série do primário, tinha conversado com ela, quanto mais dado uma resposta! Coisas estranhas acontecem, poderia dizer algum observador cínico... Dentro da sala, uma das figuras levava um golpe no abdome, o que caracterizava o fim da luta. Essa figura retirou a máscara e arrumou os cabelos cor-de-rosa que estavam presos em um rabo-de-cavalo por baixo dessas. Seu adversário também tirava a máscara e acariciava seu sabre de leve: - Não sou muito boa com o sabre...- disse Rika. - Nada que não resolva com treino. Além disso, tem que aprender a não abrir tanto sua guarda!- Akio disse, enquanto tirava as luvas. - Não sei, acho que interiorizei aquela máxima de “a melhor defesa é um bom ataque” e de vez em quando tenho uns lapsos desses. - Outra coisa que só treino resolve, então acho que devemos insistir um pouco nisso. - Akio olhou para um grande relógio em um ponto da parede e disse alto, dirigindo-se ao grupo. - Por hoje chega, estão dispensados. Alguns minutos depois, Rika saiu da sala com uma pequena mochila nas costas e uma expressão de cansaço. Cumprimentou Kyoko educadamente, mas essa fingiu que não viu o cumprimento. “Ciumeira besta até hoje...”, pensou Rika, enquanto balançava a cabeça negativamente. Ryo aproximou-se dela, sorrindo, enquanto segurava sua mochila: - Foi bom o treino hoje, Rika-chan? - Foi sim... E que gentileza sua me esperar! - Ora, não tínhamos combinado de fazer o trabalho de física juntos? - Que bom que você se dispôs a me ajudar, estou com um pouco de dificuldade na matéria... - Ah, o que é isso! Agora vamos para a biblioteca! Rika arrumou a mochila nas costas, enquanto abotoava um último botão da camisa branca sem mangas que usava por baixo do uniforme escolar, já que seu casaco também estava na mochila. - Rika-san... A garota e Ryo viraram para trás: era Akio, que segurava também uma mochila. Kyoko tentava pegar sua mão, mas ele desviava a todo instante, deixando a loira furiosa: - Hai, Akio-sempai? - Estou... ansioso pelo próximo treino. Os olhos negros de Akio observavam o sorriso de Rika, que se afastava, e muito mais do que somente esse sorriso... Como a achava linda, era a mulher mais bonita que já vira em sua vida! Como achava gracioso o peito que levantava e abaixava seguindo o ritmo de sua respiração e ainda por cima ela deixara os primeiros botões da camisa abertos! Não percebeu quando respondeu a um aceno e nem que ficou observando seus passos até que se afastasse e saísse da escola. Foi acordar quando uma nervosa Kyoko começou a gritar em sua frente: - O que a gaijin tem que eu não tenho? Se é o fato de jogar esgrima, como você, eu entro no clube agora mesmo! - Largue de besteira, Kyoko. - Eu sou sua namorada, você tem de prestar atenção em mim, não nessa menina! - Já disse pra largar de besteira... Akio largou a mão de Kyoko, que irritou-se profundamente mas achou melhor não continuar a discussão, sob pena de perder a companhia do namorado pelo resto do dia. A gaijin estava tirando-a do sério, como se atrevia a se oferecer tanto para o namorado alheio! Como se não tivesse percebido os botões da camisa deixados abertos propositadamente, era um convite para que Akio ou qualquer outro homem olhasse! - Vamos, temos trabalho de física para fazer...- disse Kyoko, tentando quebrar o gelo. - Desculpe se esqueci de avisar, acabei fazendo o trabalho com o Keisuke-kun. Acho que você deveria fazer com Kitsune-chan, ela te convidou hoje durante a aula... - Tudo bem...- Kyoko estava profundamente magoada. Akio nunca tinha deixado de fazer um trabalho com ela desde o início do namoro. - Estou cansado, peguei pesado demais no treino hoje. Quer que eu te acompanhe até a estação de trem? - Por mim tudo bem... - Não entendo como aquela menina pode ser tão implicante com você! A frase era dita por Ryo, que levava a mochila um tanto displicentemente em um ombro só por alguns instantes para tirar seu casaco, enquanto caminhava calmamente ao lado de Rika pelas ruas de Juubangai, até chegarem à estação de metrô para irem à biblioteca. Obviamente, estava falando sobre Kyoko. - Nem esquente com isso, é uma crise de ciúmes... - Lembro que foi uma confusão esse início de namoro entre ela e Sasaki-san! Na verdade, todos pensávamos que ele namoraria outra menina, mas de um dia para o outro ele apareceu com a Sakamoto-san! Nunca soube direito porque, acho que só perguntando para alguém mais íntimo eu obteria a resposta, mas que eu achei estranho e sei que muita gente também, isso sim- Ryo deliciava-se fofocando. Não era porque não conversava com seus colegas de classe que se abstinha de ouvi-las e, agora que tinha uma ouvinte, repassá-las. Rika deu algumas risadinhas, enquanto parava para abotoar a parte superior de sua camisa. Estava com tanto calor que deixara alguns botões abertos, mas agora já tinha se refrescado e podia fechá-los: - Mas se ela não faz questão de minha amizade, eu é que não vou fazer questão da dela... - Você reparou que faz duas semanas que nada estranho acontece, depois de dois ataques em dias seguidos?- Ryo disse, olhando para o chão, após alguns instantes de silêncio. - Ontem estava pensando uma coisa... Cassie-chan disse que pode ser até uma espécie desse planeta, mas nunca registrada por ninguém. E se essa espécie se alimenta de nós, humanos, e só estamos impedindo a vida deles? - Mas então por que tanta destruição e também lembro claramente que o monstro da loja queria nos matar! - E se só estão tentando sobreviver e nós atravessamos o caminho deles, hein? E se nós somos os culpados da vinda deles? Humanos não possuem predadores, mas o que impede que esses seres o sejam? Não quero ser a responsável pela destruição de uma espécie! - Prefiro não pensar muito nisso, ainda mais quando a nossa espécie é a ameaçada, principalmente pessoas próximas a nós. Rika abaixou os olhos, enquanto continuavam o caminho rumo à estação de metrô que já estava próxima. Era pedir muito tentar entender o motivo de tantas mortes, tanto das pessoas de Tóquio quanto desses monstros estranhos? Ryo estava certo em um ponto, o monstro da loja tinha tentado matá-los propositadamente. Então será que estavam envolvidos diretamente nesses ataques, que os provocavam? Será que não estavam sobrando, eram uma ameaça à tentativa dos monstros de sobreviver? Não era justo, não podia ser a responsável pela destruição de uma espécie! - Rika-chan... Vamos entrar no metrô, já estamos na porta dele! - Gomen... Nem percebera que tinha chegado à estação e estava entrando no metrô, de tão perdida que estava em seus pensamentos. Se pudesse fazer apenas uma pergunta, mesmo que tivesse de pagar bastante caro por sua ousadia, seria a seguinte: por que os fatos estavam tomando esses rumos? *** Mais carros, mais pessoas e muito mais barulho e tumulto do que no resto do dia: era hora do rush, no centro de Tóquio. Milhões de pessoas iam para casa depois de um árduo dia de trabalho, ou mesmo circulavam de um lugar para outro. O trânsito fluía com um pouco mais de dificuldade, assim como as pessoas, porém era uma agitação a qual todos já estavam se acostumados, talvez desde bebês. Entre os milhares de andantes, um garoto destacava-se não só por ser um tanto mais alto do que a média, mas também por sua relativa calma ao andar. Já fazia uma semana que finalmente tinha um trabalho honesto... Graças às articulações de Rika, agora era Silva-kun, o mais novo office-boy de uma imobiliária das Organizações Tenoh e como se isso fosse pouco, ela ainda estava articulando para que se tornasse um imigrante legal. Apesar de toda a identificação adquirida naqueles poucos dias de convívio, estava impressionado com a atenção da colega. Para que todas essas gentilezas com alguém que ainda não deixara de ser um estranho? Seus olhos passeavam pelas vitrines, observando roupas e jóias. Cassie ficaria bonita usando aquele vestido, pensou enquanto olhava para uma loja. Cassie, sua e somente sua... Não entendia como podia ter se identificado tanto também com tão pouco tempo de convívio, e como gostava dela! Mas também via o quanto sua vida fora vazia durante todos os anos em que não a conhecia, que não a teve em seus braços, que não sentiu seus lábios doces e macios... Usaria todas as suas forças, faria o possível e o impossível para que, agora que a tinha, não a perdesse jamais. Ao passar por uma vitrine onde havia um espelho, não pôde deixar de sorrir: seu novo chefe não implicara com seu brinco! Olhava também para suas roupas: uma camisa social azul-clara e uma calça social marrom, além de sapatos novos. Um presente da namorada, provavelmente para deixá-lo mais incentivado ainda para começar a trabalhar, mas como ansiava receber seu pagamento para poder comprar algumas roupas, além de ajudar Jack com as despesas do apartamento! Jack... De certa maneira, o admirava e invejava. Como queria também ter uma família que não questionasse muito, apenas lamentasse, a escolha do filho de morar no Japão e ainda por cima mandar uma mesada bastante polpuda! Tinham alugado um apartamento em um prédio barato e o joviano sabia que, no fundo, era por sua causa, pois insistiria em pagar metade dos gastos de um mês, como é geralmente estipulado quando duas pessoas dividem um apartamento, e o lugar que o companheiro arranjara permitiria isso. Era por ele que seus novos amigos tinham feito tanta coisa, como não podia sentir-se lisonjeado? Nunca em toda sua vida fora tão estimado e mimado e já estava ficando com medo de ficar mal-acostumado com tantas mordomias! Por falar em mordomias... Cérebro. Não conseguira ajudá-lo... Pois bem, não conseguira e fim! Mesmo que no fundo doesse, não poderia fazer mais nada e ficar se culpando não resolveria sua situação, tampouco aliviaria alguma coisa! Então faria uma certa força para não pensar mais nisso... Storm caminhou calmamente pela entrada da estação de metrô, enquanto conferia o tíquete antes de passá-lo na catraca. Sua nova vida, sua nova chance e, quem sabe, até a realização de seu sonho não deixavam de ser emocionantes. Nunca pudera imaginar, nem em seu melhor sonho, que as coisas poderiam acontecer com ele como tinham e estavam acontecendo... *** O anoitecer já se aproximava, o que podia ser percebido pelas nuvens rosadas que se espalhavam pelo céu. Um rapaz fitava calmamente esse céu com algumas nuvens cor-de-rosa, enquanto mentalmente confirmava que não haveria chuva durante aquela noite. Em seguida sua visão se estendeu até os limites possíveis, no vasto horizonte que se abria a sua frente. A cidade além de bonita palpitava em vida, como podia perceber pela agitação de pedestres e carros ao longe. A leve brisa percorreu seu rosto, o que fez com que fechasse os olhos negros amendoados para aproveitá-la e relaxasse quando o vento soprou seus cabelos também negros. Ao abri-los novamente, ajeitou-se onde estava sentado para não perder o equilíbrio. Tóquio possui vários pontos turísticos, porém um em especial mexia com a alma e coração do rapaz à mercê da brisa: a Torre de Tóquio. Para ele era muito mais do que simplesmente um ponto de onde turistas podiam ver a imensidão da cidade... Aquele era seu lugar, seus domínios se estendiam por muito além do horizonte... Quantos metros ela media mesmo? 333? Que fosse, o que realmente importava era que essa mesma torre havia dado a maior prova de superação e força que exigira de si mesmo: nesse exato instante estava no topo dela, sentado no apoio onde estavam algumas antenas. Nenhum segurança nunca conseguira pegá-lo e nunca sequer desequilibrara-se quando estava ali em cima. Era a prova de que era ágil como um gato... Como um Kuroi Neko, completou. Seus pensamentos fizeram com que um sorriso de sarcasmo surgisse em seu rosto enquanto repetia calmamente, observando a cidade que se estendia sob seus pés: - Você está vendo onde pode chegar, Chaz? O que acha desse lugar, é o suficiente para você, gosta daqui? E aqueles idiotas, os babacas que se achavam o máximo, os tais de Cérebro e Storm? Será que algum dia algum daqueles paspalhos chegou perto do que está fazendo nesse momento? Uma gargalhada ecoou pela Torre de Tóquio enquanto Chaz arrumava a bandana vermelha que segurava seus cabelos. De vez em quando era bom falar consigo mesmo, por que não? Algum ouvinte poderia até mesmo chamá-lo de maluco, mas ele não era. Malucos eram aqueles que tomavam as rédeas, que mandavam em tudo, que usavam o mundo como seu teatro de fantoches! Aliás... malucos eram aqueles que aceitavam ser os fantoches. O jovem sentiu o estômago, o que interrompeu seus pensamentos. Estava com fome mas não tinha dinheiro, seu suprimento para a semana tinha acabado. Além disso, não poderia recorrer aos Kuroi Neko, apesar de que nem precisaria. Era simples... Assaltar velhinhas no metrô rendia um bom dinheiro e por tabela suas refeições durante a semana! E era o que faria assim que descesse do alto da Torre. Pouco depois, misturado à multidão que voltava para casa, o ladrão ousado, o antigo líder da Kuroi Neko, uma gangue que metia medo no submundo de Tóquio, famosa pela ousadia de seus assaltos, Chaz, buscava aquilo que mais do que provinha seu sustento, era sua principal diversão... *** Milhares de pessoas seguiam seu rumo cotidiano, distraídos com a normalidade do dia que se encerrava. Não prestavam atenção, e nem poderiam, em duas figuras ocultas pelas sombras em algum canto da estação de metrô. Olhos de gato brilhavam e a dona desses olhos disse para aquele que era seu subordinado: - Está vendo como este lugar é movimentado? Se for discreto, conseguirá a energia de que precisa e ainda atrairá aqueles intrometidos dos Pirate Knights, o que te dará a chance de acabar com eles. E, se tudo ocorrer como planejado, seus crimes serão perdoados e você terá sua liberdade de volta. - Smelly! - Foi a resposta do monstro, uma afirmativa. Lutaria com todas as suas forças pela sua liberdade! - Estarei observando o resto do plano da sala de controle... Aneurocito afastou-se um pouco antes de teleportar-se para junto do portal que a levaria para casa. Não queria ficar ali para ver a morte de um servo, ainda mais quando sabia que tinha mandado-o para morrer... Em uma guerra ocorrem baixas, tentava pensar sem sucesso. Não queria causar a morte de mais iguais, tinha de concluir seu plano logo! Uma lágrima foi derramada enquanto a serva do Castelo da Escuridão voltava para a sala de controle... O metrô percorria seu caminho, em uma velocidade tão grande que era impossível ver alguma coisa além de borrões pelas janelas. Estava lotado de trabalhadores e estudantes que voltavam após um dia de estafante trabalho e estudo, querendo relaxar no conforto de seus lares... Rika estava, por sorte, sentada em um banco, enquanto olhava para algum ponto distante qualquer. Qual era o sentido, por que coisas estranhas estavam acontecendo, o que aqueles monstros queriam? E, principalmente, não estava errada em matá-los? Seus pensamentos foram ceifados por Ryo: - Levante-se, estamos quase chegando. Rika levantou-se com dificuldade devido às muitas pessoas que estavam no corredor do trem e equilibrou-se segurando em um apoio, enquanto arrumava a mochila nas costas. Ryo não pôde deixar de notar que ocorrera uma mudança em sua amiga: - O que foi? Seus olhos estão tristes... É por causa da Kyoko-san? - Não é nada disso, só estou um tanto angustiada com nossa situação, não consigo entender por que todas essas coisas estranhas estão acontecendo e por que tenho de lutar! - Já ouviu falar no princípio de “matar para não morrer”? Já te disse que luto porque se não fizer isso eles me matarão, assim como a você, nossos companheiros e pessoas inocentes. Se estamos em uma guerra, se tem alguém que nos ameaça, assim como àqueles que amamos, não tenho que pensar no que é certo, errado, politicamente correto ou no que quer que seja. Tenho de viver e deixar quem amo viver, mesmo que para isso tenha que causar baixas no outro lado, matar seres que podem não ter noção do mal que estão causando. - Você está certo e acho que acabo me acostumando com a idéia de ter de matar esses seres. Mas não entendo, lá no fundo tenho uma sensação estranha... A de que estou mais próxima a eles do que posso sonhar. A estação central era anunciada, enquanto Rika e Ryo pediam licença a algumas pessoas para atravessarem o trem rumo à porta, pois aquele era o ponto onde tinham de descer se queriam ir para a biblioteca preferida do mercuriano. Porém, um fato despertou surpresa e uma preocupação imediata nos jovens: as pessoas da estação estavam simplesmente correndo ! Entravam no metrô por todas as portas, praticamente esmagando quem se arriscava a sair. As pessoas, desesperadas, não paravam de entrar, enquanto Ryo disse, enquanto era impelido contra a janela juntamente com a companheira: - Tem alguma coisa muito errada aqui e vamos morrer esmagados antes de descobrirmos o que é! Rika olhava para a confusão de pessoas que corriam desesperadas tentando entrar no metrô antes que as portas se fechassem, o que ocorreria em três minutos pelos seus cálculos. Não tinham como atravessar a multidão de gente, ainda mais indo contra seu curso, mas precisavam sair dali o mais rápido possível! A janela estava um pouco suja, devia fazer um longo tempo que não tinha contato com água ou sabão. Janela, sair do metrô... SIM, ERA ISSO! - O que está fazendo, Rika-chan? A garota tinha tirado um de seus sapatos e o usava como apoio para bater na janela com toda a força que podia canalizar. Tinha que quebrar aquela coisa rápido se queria sair viva daquele metrô! Para concentrar sua força, gritava enquanto desferia os golpes. Ryo disse, assustado: - A vidraça é resistente, não vai quebrar assim tão fácil! Porém, para o espanto do rapaz e de algum outro observador da cena, foram necessárias apenas três pancadas para que a janela se quebrasse completamente: - Mas... Rika-chan... como? - Não pergunte nada, só pule! Rika e Ryo, o mais rápido que puderam, pularam pela janela, caindo na plataforma de embarque do metrô, que partiu poucos instantes após a fuga desesperada dos colegiais. Foram necessários alguns segundos, enquanto assistiam a correria desesperada de algumas pessoas rumo à saída ou até mesmo tentando correr pelos trilhos, para que descobrissem a causa do pandemônio que se instalara na estação: um monstro que parecia uma planta em formato humanóide podia ser visto: - Ah não, falamos cedo demais que os problemas tinham acabado!- Ryo disse, enquanto segurava seu pingente. - PODER DE MERCÚRIO, VENHA A MIM! - Estação central do metrô, RÁPIDO!- Rika disse, usando o comunicador. - PODER DE URANO, VENHA A MIM! O monstro, ouvindo os gritos, aproximou-se do local onde os dois Pirate Knights estavam, ainda arrastando sua vítima enquanto acabava de sugar sua energia. Então aqueles eram os famosos guerreiros ao qual deveria combater? Pareciam tão fracotes sentados no chão em uma pose tão displicente como estavam! Porém, lembrava-se bem da ordem para matá-los e também da recompensa que ganharia caso conseguisse esse feito: o perdão de seus crimes, a liberdade... Era o que mais queria! E o que conseguiria dentro de pouco. - Como se atreve a atacar pessoas inocentes e matá-las? Me enfrente se for capaz, vamos! Uranus estava em posição de ataque, enquanto Mercury, um pouco afastado, conjurava sue computador e começava a análise dos dados, o que poderia favorecer a companheira. A uraniana não acreditara que tinha dito a frase anterior, que chamara o monstro para a morte... Porém, era um mal necessário, tinha de acabar se acostumando. E tinha entendido o recado de Ryo, se não agisse, inocentes acabariam por morrer e as pessoas que amava correriam perigo. Além disso, por que não mostrar a força que sabia que tinha e nunca pôde aproveitar nesses monstros? Não fora por intermédio de seu pai que depois de muitos pequenos acidentes com a força que não conseguia controlar quando criança fora iniciada em todo e qualquer esporte possível para que essa força fosse canalizada? Por que não mostrar de uma vez por todas que possuía e sabia controlar sua força? A uraninana olhou com sarcasmo para sua vítima, enquanto seu turbilhão de pensamentos continuava. Para bloquear a sensação de culpa por matar um ser vivo sem saber das motivações que o levavam a estar ali, por que não levar sua necessidade de afirmação ao extremo? Seria exatamente isso o que faria. - Galactic quake! A esfera de energia foi lançada contra Smelly. Para proteger-se, o monstro ergueu uma espécie de cipó ao redor de seu corpo, o que dissipou o ataque sem que lhe causasse ferimento nenhum. Uranus olhava um pouco espantada e recebeu como resposta uma provocação: - Está pensando que vai me vencer com isso? Sem que Uranus ou Mercury percebessem, um cipó atravessava em alta velocidade o piso da estação, encontrando-se com a canela da uraniana sem que ela tivesse reação, o que provocou sua queda. Dois outros cipós a envolveram pela cintura, erguendo-a e mobilizando-a. “O que um instante de distração tinha causado!”, não podia deixar de pensar. Ao perceber o que tinha acontecido com a companheira, Mercury largou seu computador, que desmaterializou-se antes de atingir o chão, para tentar acudir a companheira: - Mercury freezing dance! Os cristais de gelo envolveram Smelly e seus cipós, imobilizando-os. Porém, era óbvio tanto para Mercury quanto para Uranus que essa barreira duraria pouco, pois estava fina e o monstro tentava se mexer. - Se eu tivesse meu florete comigo sairia daqui agora!- Uranus disse, mesmo tendo suas mãos imoblizadas. - Se eu quebrar o gelo para tentar tirá-la daí, o monstro vai conseguir se libertar! Tudo o que posso fazer nesse momento é rezar para que nossos companheiros não demorem. Uranus deu um longo suspiro em sua prisão. Por que se distraíra, por que se tornara presa fácil? Agora estava em apuros e tudo o que podia fazer era depender de uma ajuda que não sabia se viria a tempo! Era mesmo uma idiota, por que deixar sua defesa completamente aberta? Mas não era hora de recriminar-se, mas de tentar achar alguma solução, mesmo que impossível, para sair de onde estava... Centro de Tóquio, em plena hora do rush. Dentre as milhares de pessoas que seguiam seu curso diário, um rapaz andava despreocupadamente, passando como sombra entre os passantes. Era hábil, como um ladrão precisava ser. Se quisesse poderia muito bem assaltar qualquer um dos passantes, mas queria ir a um lugar em especial: a estação central de metrô. Por que? Não sabia exatamente, mas sentia que deveria assaltar alguém nessa estação de metrô. Sentir alguma coisa, ser chamado por seu destino... bah, quanta besteira! Como umas idiotices dessas estavam passando por usa mente enquanto andava? Estava indo para a estação central de metrô ao invés de assaltar velhinhas e colegiais indefesas em qualquer outro lugar simplesmente porque gostava dali, além do que não havia nada que compensava o prazer de uma boa caminhada. Chaz tinha um sorriso irônico no rosto após o último pensamento. Como se estivesse se preocupando com isso! Sentir o prazer de uma caminhada era coisa de uma burguesia fútil, não de alguém como ele. Era coisa de gente que, ao contrário dele, andava apenas por lazer ou por preocupar-se em enfiar-se nos últimos modelos da moda mundial! Não, não era hora de divagar, mas de entrar na estação e roubar às velhinhas e colegiais, pois antes de qualquer coisa precisava comer e divagações nunca encheriam seu estômago. Já devia estar chegando, era só virar a esquina e seguir por mais dois quarteirões que estaria em seu destino e poderia assaltar suas vítimas preferenciais logo. Apesar da habilidade adquirida durante os muitos anos de vida nas ruas, que fazia com que passasse pelas pessoas sem ser percebido ou mesmo esbarrar-se em alguém, um senhor com uma pasta tropeçou e caiu sobre ele, fazendo com que os dois caíssem no chão. Após praguejar um pouco, Chaz levantou-se, apenas para ver a massa humana que corria na direção oposta da estação: - Mas \n'; document.write(barra); } } changePage(); Mercury tentava tirar Uranus da prisão de cipós congelados, mas não tinha muito sucesso. Não podia tentar quebrar o gelo, ou o monstro se libertaria mais rápido já que a prisão temporária estava se derretendo e o cavaleiro com certeza não poderia contê-lo antes de atacar novamente, talvez tirando Mercury de combate. Uranus suspirava, nervosa por não poder fazer nada, apenas esperar por ajuda: - Já vai, Uranus, já vou te tirar daí- disse Mercury, enquanto tentava arredar um dos cipós. - Essa é a quinta vez que você diz isso em menos de um minuto...- Uranus disse, antes de um novo suspiro. Mercury tentava tirar a companheira novamente, tentando inutilmente empurrar alguns cipós, mas o gelo começou a trincar e ele teve de se afastar: - Por um acaso você está com medo de enfrentar essa coisa?- A uraniana já demonstrava sinais claros de irritação. - E se eu estiver, é humano ter medo! - Uma pessoa na nossa posição não pode se dar ao luxo de ter medo! - Neptune Boomerang Action! O mercuriano teve de ser rápido para pegar a companheira que caía em seus braços, enquanto seus olhos acompanhavam a voz e o movimento do bumerangue. Neptune Pirate Knight estava parada no último degrau da escada, displicentemente jogava seus cabelos para trás, enquanto pegava sua arma novamente: - Nada de discussões inúteis enquanto há um dever a se cumprir. O gelo que envolvia o corpo de Smelly estilhaçou-se poucos instantes depois de seus cipós terem sido cortados, o que pôs Neptune em uma postura de ataque. Obviamente o monstro estava furioso e, apesar dos cipós cortados, alguns outros erguiam-se na direção da guerreira, prontos para agarrá-la: - Neptune Aqua Flood! O fluxo de água atingiu o monstro em cheio e ele começou a gargalhar. Neptune, Uranus e Mercury olhavam atônitos enquanto os poucos ferimentos que o monstro tinha cicatrizavam rapidamente. O mercuriano rapidamente invocou seu computador e pouco depois, disse: - Água regenera esse monstro! A netuniana saiu da escada e aproximou-se um pouco de onde os companheiros estavam, em posição de defesa, mas dois cipós vieram rapidamente e agarraram seus pulsos, enquanto ela os mantinha unidos na frente do seu corpo, travando os músculos de seus braços para que Smelly não os puxasse e deslocasse seus ossos, já que era o que certamente pretendia. Na mente da amazona, nenhum pensamento. Toda a sua força, toda a sua vontade, toda a sua energia estavam concentradas em seus braços e não poderia ceder à força do monstro, tinha que continuar se segurando, por sua própria vida! Não que tivesse muitos planos para o futuro ou algum prazer em continuar vivendo, mas pelos seus companheiros, não poderia morrer ali, não por um monstro daqueles! A netuniana sentiu os pés derrapando e que destravara os braços por alguns segundos. Não, o monstro não poderia aproveitar de um momento de fraqueza para matá-la, não podia permitir que isso acontecesse! Porém suas forças estavam esvaindo-se e não demoraria muito para ter os ossos do braço deslocados, assim como as costelas e a coluna. Não, não podia deixar, tinha de ser forte! Tinha de ser... Neptune já estava a ponto de perder os sentidos e sua força acabara completamente. Era esperar... talvez pela morte, talvez pela salvação... Smelly, percebendo que a resistência da amazona tinha cessado, preparava-se para finalmente matá-la, quando sentiu uma dor um tanto aguda que o fez jogar o próprio corpo para trás. Ao olhar novamente para tentar descobrir o que havia acontecido, o monstro descobriu que seus cipós tinham sido cortados. Ao olhar para frente, observou um jovem com uma alabarda na mão e uniforme semelhante ao dos outros três, mas roxo, colocando-se em posição de combate. O que era isso agora, Pirate Knights brotavam do nada? Saturn apontava sua lâmina para o monstro, preparando-se para atacar novamente. Como o monstro se atrevia, ao chegar no metrô estava a um passo de matar Sarah, não podia permitir que isso acontecesse, nunca! E não apenas por ela, mas por todos os passageiros de metrô, transeuntes de Tóquio e principalmente por suas vítimas, o monstro precisava ser parado, nem que fosse necessária sua morte para tal! - Silent Glaive... Attack! Saturn, com toda a velocidade que tinha, ao mesmo tempo em que dizia essas palavras guiava sua lança de encontro ao peito do monstro, que foi prontamente atravessado, fazendo esguichar sangue verde. Smelly caiu e o cavaleiro, parado a alguns centímetros de distância, olhou-o com ar de dever cumprido. - Mercury... O que está esperando para ver como Neptune está? - Foi tudo o que ele disse. Mercury levantou-se do lado de Uranus e atravessou a plataforma de embarque correndo, até onde a companheira jazia desmaiada. Após verificar sua pulsação com cuidado para não tocar nos locais irritados pelo contato com os cipós e também sua respiração, além de digitar alguns poucos dados em seu computador, disse: - Ela está bem, daqui a pouco acorda. - E agora dá para alguém, por tudo o que é mais sagrado, ME TIRAR DAQUI? - Uranus berrou, irritada. - Estou indo- disse Saturn, esboçando um sorriso. Porém, quando o cavaleiro preparava-se para ir até onde a companheira estava, sentiu o chão sumir e o ar sob seus pés. Smelly lançara um de seus cipós em sua perna e o girava no ar como um boneco: - Mas como ele está vivo?- Saturn disse, espantado, enquanto invocava sua lança mais uma vez. - Achou que seria tão fácil, Pirate Knight? O guerreiro começou a sentir o lanche da tarde querendo ver a luz do dia, mas o mais rapidamente que conseguiu cortou o cipó que o prendia. Porém, como não podia conter a lei física da inércia, continuou pelo ar até chocar-se contra uma pilastra, caindo desacordado. Mercury, enquanto corria para onde o companheiro estava, gritou: - SATURN! Porém, havia um monstro na plataforma e mais um de seus cipós foi lançado, dessa vez contra a cintura de Mercury. Após uma longa gargalhada, Smelly disse: - Não pensei que fosse tão fácil assim acabar com vocês, Pirate Knights! - Ei, pode parar por aí! O monstro olhou para a direção de onde a voz vinha, no caso uma das escadarias de acesso à plataforma: Contra a luz, uma garota estava com os pés paralelos e as mãos na cintura e, quando percebeu que era observada, apontou o indicador direito para o monstro e disse: - As vacinas BCG me tornaram a guerreira mais forte e hoje, ao invés do Sol e da Lua, quem punirá você serei eu! - Venus, essa frase pertence a uma guerreira inocente, comilona e atrapalhada, MAS QUE NÃO É VOCÊ! - Íris, entre os pés da amazona, esbravejou. - Ah, mas essa frase é tão legal! - Mas não é seu lema! - Bom, não vim para cá para discutir isso, então vamos ao que interessa! Ué... mas cadê o monstro? Só estou vendo uma samambaia ultradesenvolvida! Mercury sentiu que caía sentado no chão e Uranus, a testa ensopada devido à enorme quantidade de gotas de suor. NÃO, ELA NÃO TINHA OUVIDO AQUILO! Smelly, por sua vez, estava furioso. Como aquela pivete metida a guerreira se atrevia a compará-lo, uma das maravilhas que a divisão em raças da sua espécie produzira, com uma reles samambaia? Ultraje, em uma palavra um ultraje! A garota insolente tinha de pagar pela comparação infeliz, e caro! Smelly lançou um de seus cipós contra a guerreira, que com uma demonstração de contorcionismo conseguiu desviar e após isso comentar assustada: - A samambaia está viva! - E existe alguma que não esteja? - Íris perguntou com uma gota de suor enorme na testa. - Bom, a que mamãe colocou na sala! - Ela é de plástico, Venus... - Está vendo? Não é toda samambaia que está viva! - EU... NÃO... SOU... UMA... SAMAMBAIA! Smelly lançou um de seus cipós contra a cintura de Venus, trazendo-a um pouco para perto e deixando-a a alguns metros de altura. Com outros dois, batia no seu rosto, de um lado por vez, provocando gritos de dor: - Retire o que você disse agora! - AIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!! Smelly continuou a sessão de tapas, enquanto Mercury aproveitou para sair correndo de onde tinha caído e ir checar respiração e pulsação de Saturn, caído pouco adiante. Após alguns minutos de pancadaria, o monstro gritou: - Anda, estou esperando! - E deu mais um tapa. - Você... não... é... uma... samambaia... Após dizer a frase, Venus desmaiou e foi largada no chão pelo monstro, que comentou simples, dura e secamente: - Assim é que eu gosto, adversários obedientes. O monstro se voltou para onde Mercury, que digitava qualquer coisa completamente trêmulo em seu computador, estava. Disse, enquanto encarava o jovem: - Essa é a sua vez, será o primeiro a morrer! O monstro lançou todos os cipós que tinha de uma vez contra Mercury, cuja única reação foi levar os braços para frente do rosto, em pânico. Uranus gritou assustada, porém não havia nada a fazer a não ser assistir e talvez esperar que alguém se lembrasse de tirá-la de onde estava, pois livre certamente teria alguma utilidade. Como era terrível assistir aos companheiros serem feridos e não poder fazer absolutamente nada! Porém, a batalha não estava de todo perdida. Se Uranus, Mercury ou mesmo Smelly pudessem prestar atenção naquele momento, ouviriam o som dos saltos de um par de sapatos cuja dona tinha andar suave e delicado. Essa dona aproximou-se e, ao verificar visualmente a situação da plataforma, resolveu entrar em ação para o bem de seus companheiros. - CHRONO... COLLAPSE! Ao dizer a primeira palavra, estendeu a mão direita e ao falar a segunda, empurrou o ar. Porém, não era exatamente o ar que empurrava, mas um pedaço da própria malha temporal. Quando Smelly foi atingido, simplesmente parou no tempo por alguns segundos, tendo seu ataque anulado. Mercury olhou para a frente e finalmente viu a companheira: - Pluto... - O que está esperando para sair daí? - Uranus gritou para o companheiro. Mercury novamente saiu correndo, dessa vez para qualquer lugar longe do alcance do monstro. Pluto tinha um sorriso levemente impresso em seu rosto, em oposição à expressão de seriedade que carregava no olhar. Estendeu as mãos e, após fechar os olhos por alguns instanters e concentrar-se, um cetro apareceu. Esse cetro tinha a forma de uma grande chave antiga feita de prata, adornada com uma esfera negra. Seria mais fácil lutar se o usasse como arma e era o que a amazona pretendia. Smelly, sem entender muito bem o que tinha acontecido, virou-se para onde a nova guerreira estava e mandou um de seus cipós, rebatido com o cetro, colocado na frente do corpo da amazona e sendo girado. A posição dela era de uma pessoa tão segura de seus atos que o monstro começou a temer pela luta, sem ao menos saber o que ela era capaz de fazer. Não se parecia com os outros que estiveram ali, o olhar dela não demonstrava traço nenhum de insegurança! Mercury, um pouco afastado, procurava em seu computador o ponto fraco daquele monstro. Já estava começando a ficar irritado, será que ele era invencível por um acaso? Uranus, por sua vez, bufava de raiva. Custavam tirá-la dali, era tão fácil, só seria necessário uma lâmina e um pouco de paciência, mas não! Todos iam enfrentar aquela coisa e a esqueceram ali! - Achei! Pluto desviou o olhar para o companheiro que dissera a frase e Smelly alertou-se, não desviando o olhar da amazona. Ela iria se distrair e assim poderia prendê-la, era bom estar preparado! - A fraqueza desse monstro é fogo! - Que ótimo... - Uranus comentou ironicamente. Pluto virou-se novamente para o monstro, porém sentiu que o chão não estava mais sob seus pés e também que suas mãos soltaram sue cetro, que desmaterializou-se antes de atingir o chão. Smelly tinha lançado um de seus cipós contra a cintura da amazona e fazia o mesmo contra Mercury, pegando-o desprevenido enquanto assustava-se com o acontecido à companheira. Uranus gritava desesperada, já que era a única coisa que podia fazer imobilizada, enquanto os companheiros sentiam os movimentos tornarem-se impossíveis devido à pressão dos cipós. - E agora, o que fazemos? - Temos de pensar em alguma coisa, o mais rápido possível! Smelly, ouvindo a conversa, apertou ainda mais os jovens, que começavam a sentir dificuldade em respirar: - Acho que... acho que... vamos morrer! - Pare com isso, Mercury, só vou desistir quando não tiver mais jeito nenhum! E se nos desesperarmos as coisas ficarão piores! Pluto engoliu em seco após dizer a frase, pois a dissera apenas para não se desesperar de vez. Como queria que seu amado joviano aparecesse e salvasse o dia, agora mais do que nunca! Alguns passos podiam ser ouvidos e indicavam que uma pessoa se aproximava, fato suficiente para acalmar o coração da amazona. Era ele, só podia ser ele! Porém, a voz de Mercury fez com que acordasse de sua doce ilusão: - O que está fazendo aqui? Vá embora se tem amor à vida! - Quem é você para me dar ordens? Um rapaz alto, que aparentava ser forte, vestido com algumas roupas velhas, os cabelos negros presos com uma bandana e um olhar de arrogância suprema estava parado a alguns metros do monstro e dos cavaleiros presos. Pluto disse, um tanto decepcionada por não ser quem esperava: - O que está esperando para ir embora daqui? Está correndo perigo! - Então são vocês que estão presos e eu que estou correndo perigo, como as coisas são irônicas, hein! - O único irônico idiota que estou vendo aqui é você! - Uranus gritou, irritada. - Quem está de fora não opina. - Isso serve para você, vá cuidar da sua vida que cuidamos muito bem da nossa! - Cuidam tão bem assim a ponto de estarem quase vencidos? Smelly, ouvindo a discussão, começou a se irritar. Os Pirate Knights estavam falantes demais para quem iria morrer em alguns instantes! Estava na hora de dar um jeito na situação e ganhar a anulação de sua sentença logo! Lançou mais dois cipós, atingindo o pescoço de seus prisioneiros. Pluto e Mercury sentiram o ar faltar e também que a morte estava se aproximando rapidamente. Porém, era o preço a pagar caso queriam ser os protetores de Tóquio ou do que quer que fosse: a própria vida. A lâmina de uma espada refletiu a iluminação da plataforma, enquanto seu dono corria o mais rapidamente possível até onde seus companheiros estavam presos. Smelly sentiu novamente a dor de ter alguns de seus cipós cortados, enquanto Pluto sentia que caía em um colo suave e Mercury que o chão da plataforma era bem duro. - Jupiter... - Demorei, minha querida? - Um pouco... - Ai, essa doeu... - disse Mercury enquanto massageava a região lombar. Chaz olhava para toda a cena com uma expressão de inconformismo. Como... como podiam ser tão petulantes, se acharem tão importantes? E ainda mais a postura daquele idiota de verde, como se fosse o herói do dia pronto para salvar a mocinha inocente das garras do monstro malvado... Como podiam ser tão presunçosos? - Idiota... idiota... IDIOTA! Como pode tê-los em suas mãos e deixar com que escapem, não é seu objetivo destruí-los? Então como consegue ser tão incompetente, hein, seu monte de adubo? Jupiter preparava-se para atacar, movimentando sua espada até chegar a uma posição de ataque. Disse: - Está na hora de lutar monstrinho! Smelly olhou para a frente com uma expressão de ódio profundo. Como se atrevia a desafiá-lo daquela maneira, a se achar tão arrogante? Como se achava no direito de dizer tais coisas e ainda supor sair dali ileso? O monstro andou para frente, com o ódio estampado nos olhos. - Acho que deu certo- disse Jupiter, segurando a espada e sorrindo. - E eu acho que não... - disse Mercury, enquanto o monstro passava por eles e ia na direção do rapaz de bandana. - Repita o que disse se tem coragem... - Repito quantas milhares de vezes você quiser e ainda digo mais! Se quisesse, tinha matado todos esses boyzinhos metidos a super-heróis e cumpriria sua missão. Mas não, como não passa de um monstro imbecil nem isso é capaz de fazer! Chaz gritava com todo o seu ódio, toda a raiva contra aqueles idiotas que só porque vestiam um uniforme e usavam armas e técnicas de lutas se achavam os melhores, acima do bem e do mal. Por que o monstro não tinha acabado com eles, por que Tóquio precisava ter defensores tão indignos? Um cipó foi na direção do rapaz, que desviou prontamente, assim como de outros três que o perseguiam. Continuava a gritar, como se libertasse todo o seu ódio e frustrações daquela maneira: - Tão incompetente que não consegue nem agarrar um garoto petulante, que coisa! E também burro, por que não aproveita que eles estão parados olhando, esperando para salvarem o dia, e acaba com eles hein, coisa feia? - Quem é você para contestar minha competência hein, fedelho? - E quem é você para me chamar de fedelho? Como alguém que não tem competência para acabar com meia dúzia de idiotas pode se dar ao direito de me chamar de fedelho? Demonstre que é capaz de fazer alguma coisa antes de me chamar de fedelho! Chaz continuava pulando e contorcendo-se para fugir dos cipós, com bastante sucesso, muito maior do que qualquer um dos Pirate Knights experimentara. Por falar neles, os cavaleiros observavam, atônitos, à cena. Como aquele garoto podia ser tão petulante e o pior, como ele podia realmente estar dando trabalho para o monstro? Íris cuidava de Venus, desmaiada e com alguns machucados no rosto. Mesmo sendo protetora de todos os Pirate Knights, não de um especificamente, na prática agia como a protetora pessoal da venusiana e muito mais do que isso, identificara-se com a garota a um ponto de que não via mais sua vida naquele momento sem estar com ela, sempre com ela. Será que era assim que um escudeiro de um cavaleiro se sentia, afinal? E seria esse o destino reservado a ela, ser uma espécie de escudeira de Venus? Pelo menos se sentia feliz, um sentimento que há muito não experimentava. Ao olhar para toda a plataforma, podia ver Neptune deitada, porém já começando a mexer-se demonstrando que logo acordaria, Saturn desacordado e aparentemente um pouco machucado, Uranus presa por alguns cipós, Pluto, Jupiter e Mercury parados olhando para um ponto, com expressões de espanto e, um pouco mais afastados, o monstro e um rapaz, cujos gritos podiam ser ouvidos de onde a gata estava. Não só os gritos... Podia ver que sua aura consumia-se em chamas e que um símbolo começava a brilhar em sua testa. - Na hora certa - disse a gata, enquanto invocava o último pingente de transformação. - Está esperando o que para acabar de uma vez comigo, imprestável? Ou será que eu sou demais para você? Ai que coisa, vencido por alguém que nem poder tem! Porém, Smelly não era assim tão despreparado e lançou um de seus cipós no pescoço de Chaz, que calou-se e lançou um olhar de ódio para o monstro: - O que foi frangote, sua valentia acabou? A gata, correndo o mais que podia, chegou até onde a ação se desenrolava trazendo um pingente vermelho na boca: - Ei, garoto! - Chaz olhou para a felina. - Segure esse pingente e diga: “poder de Marte, venha a mim!”. Pela primeira vez em muitos e muitos anos, o ladrão seguiu uma ordem sem contestá-la ou ao menos parar para pensar no que fazia: - P-p-p-p-poder de Ma-ma-ma-ma-mar...te, v-ve-venha a mi-mim! Fogo envolveu o corpo do jovem, enquanto suas roupas davam lugar a calça vermelha, camiseta com listras horizontais vermelhas e brancas, um casaco vermelho com bordados da mesma cor e sapatilhas de praticante de artes marciais também vermelhas. Smelly, assim como todos os outros, olharam espantados para a figura de Mars Pirate Knight logo à frente. Com alguma dificuldade, o novo cavaleiro ergueu a mão direita e desenhou um arco no ar, onde aparece um arco sem corda também vermelho e muito bonito. Concentrando-se, como se puxasse uma corda imaginária, o cavaleiro recitava seu golpe: - Mars... burning... arrow! Uma flecha de fogo atingiu Smelly em cheio, transformando o monstro em pó quase instantaneamente. Ao mesmo tempo, os cipós que prendiam Uranus se desfizeram, fazendo com que a amazona praguejasse de leve por alguns instantes por ser necessária a destruição do monstro para que se libertasse. Mars, um pouco tonto, estava sentado com a mão sobre a testa recobrando o fôlego perdido. Jupiter comentou, aproximando-se: - Mal entrou no grupo e já não fui com a sua cara. - Eu posso dizer o mesmo. Pluto colocou a mão sobre o peito do namorado, impedindo que ele respondesse. Disse, calmamente: - O importante é que o monstro foi derrotado... - Eu não acredito nisso! Essa babaquice de uniforme, transformação e golpe significam que sou um herói-boyzinho também? - Se você prefere chamar assim...- disse Mercury. - E você tem algum nome melhor? - Sim, nosso nome de direito... Pirate Knights. - Que nome idiota... Quer dizer então que eu sou Mars Pirate Knight? - Três vivas ao senhor gênio que só descobriu isso agora! - Mercury disse ironicamente. - Damare! - Você primeiro, idiota! - Pare com isso, Mercury, não vai levar a lugar nenhum brigar com um idiota metido a revoltado - disse Uranus se aproximando. - Quem está de fora não se mete... - Só sabe falar essa frase por um acaso? - Uranus respondeu sarcasticamente. - Acalmem-se - disse Íris, tomando uma posição de destaque. - Não se meta, aberração falante. - Aberração? ABERRAÇÃO? Vou te mostrar a aberração, seu idiota! - Íris pulou sobre o guerreiro, preparando-se para arranhá-lo até a morte. - Não é à toa que não fui com sua cara, novato - disse Jupiter, com um olhar de dó e piedade. - Se não tem nada para dizer fique quieto - disse Mars enquanto segurava a gata pelas costas. Uranus, Pluto e Mercury, deixando a discussão um pouco de lado, foram socorrer Saturn, que começava a acordar. O saturniano agradecia aos céus pelo uniforme, apesar de fino, ser resistente e ter amortecido o impacto, fazendo com que seus ferimentos se resumissem a alguns hematomas e arranhões. Disse, olhando para a frente e vendo a figura de vermelho: - Quem é aquele? - Mars Pirate Knight, que acabou de despertar - disse Pluto. Uranus piscou os olhos por alguns instantes, após ouvir o título do novo companheiro. Que sensação esquisita aquele nome trazia, era como se tivesse alguma coisa errada com ele, como se trouxesse lembranças ruins... Besteira, a sensação devia ser pelo fato do novo companheiro ser um mal-educado de carteirinha. Pouco adiante, Neptune, que acabara de acordar, juntava-se ao grupo de companheiros. Aqueles olhos, os cabelos presos por uma bandana vermelha... Sentia que o conhecia, que estava próxima de um antigo e estimado conhecido. Estranho, sentir coisas assim quando se está ao lado de um desconhecido! As palavras brotaram de seus lábios sem que tivesse muito controle sobre elas: - Seja bem-vindo, Mars Pirate Knight. Ao invés de uma resposta ou uma frase qualquer, o marciano conseguiu apenas piscar algumas vezes para a nova companheira. Por que não conseguia respondê-la? Estranho... Era como se estivesse diante de alguém a quem devesse muito respeito, mesmo sendo uma estranha. E aquele olhar profundo como o mar que carregava uma tristeza infinita? Eram olhos cativantes, porém tristes como toda a garota. Jupiter, ao perceber todos os companheiros próximos, disse: - Acho bom revertermos... - E por que eu te obedeceria? - Mars perguntou agressivamente. - Porque eu sou o líder serve como resposta? - Líder sem autoridade reconhecida! - É reconhecida por todos, se não quiser aceitar problema seu! - Deseje voltar ao normal... - sussurrou Neptune, levemente. Alguns instantes depois, Mars Pirate Knight voltou a ser Chaz, que olhava surpreso para onde deveria estar aquele que se declarava líder, que olhava mais surpreso ainda de volta: - EU NÃO ACREDITO! VOCÊ? - Os dois disseram ao mesmo tempo. - Por quê? Vocês se conhecem?- Cassie perguntou enquanto pegava a mão do namorado. - Claro! Já ouviu falar numa gangue chamada Kuroi Neko? Pois então... Nas leis não-ditas do submundo, uma cidade é dividida em áreas de atuação, mas parece que alguns membros de algumas gangues nunca ouviram falar em nada disso... - Deve estar falando de você mesmo e aquele outro paspalho chamado Cérebro. - Estou falando é dos Kuroi Neko e de seu líder... - Ashura é um ótimo líder e fiz muito bem em passar a liderança para ele, ultimamente ando afastado... E por que estou falando essas coisas para você, Storm? - Eu é que sei? - Foi a resposta cínica. Enquanto a discussão continuava, Venus acordava vagarosamente, sentindo como se tivesse levado uma surra... bom, natural que se sentisse assim, tinha levado uma surra! Pelo menos levava uma lição para a vida: nunca chamar um monstro que se parecesse com uma samambaia de samambaia... Ao olhar para os companheiros, viu uma figura diferente: um rapaz alto, cabelos negros presos por uma bandana vermelha tão bonito! A garota reverteu em um pulo e em outro apareceu na frente dele: - Oi! Quem é você? - Eu sou eu, ora... - respondeu Chaz com um leve ar de desprezo. - Custa respondê-la educadamente? - Rika disse, fuzilando-o com os olhos. - Meu nome é Chaz se é isso que quer saber... - Que nome... incomum! - É, eu sei... - disse Chaz tentando sair do cerco da garota. - Atashi wa Aino Ishtar! Tenho 14 anos, estudo na... - Nossa, que gosto seus pais tinham para nomes! - Chaz interrompeu a apresentação. - E você tem muita moral para falar isso com um nome desses! Além disso, tenho o nome de uma deusa e gosto muito dele, tá bom? Ishtar deu alguns passos para o lado, pegando Íris no colo, emburrada. A gata disse, ao ver a expressão da protegida: - Não ligue para ele, é um grosso, isso sim. O ladrão olhava para o grupo com um ar de desprezo profundo. Disse, enquanto dirigia-se para a saída, sem olhar para nenhum deles: - Pronto, já virei um herói-boyzinho e salvei o dia, satisfeitos? Agora esqueçam que existo! - Com prazer! - Ryo respondeu, agressivamente. Quando Chaz preparou-se para subir as escadas da saída, ouviu um chamado da plataforma, feito por uma voz capaz de impor respeito até em pedras e cimento: - Espere um pouco, meu jovem. Ao olhar para trás, o marciano viu uma pantera negra que se aproximava dos companheiros. Sem se mexer, apenas virando o rosto para a direção onde estavam, Chaz disse: - Por que esperaria? - Loki-sempai! - Íris disse, enquanto pulava do colo de Ishtar para aproximar-se do companheiro. - Estou vendo que todos despertaram. Isso é muito bom! - A pantera tinha algo que se parecia com um sorriso no rosto. - Quem é esse? - Ryo perguntou para Rika. - É Loki, que nos ajuda assim como Íris. “E outro que me traz uma sensação estranha...”, não pôde deixar de pensar. Chaz só podia dizer uma frase, que demonstrava todos os seus pensamentos sobre sua nova situação: - E eu com isso? - Calma, meu jovem Mars Pirate Knight. Esse é seu destino, não pode fugir dele, nem que queira! Com o tempo você se acostuma. - Destino? - Chaz deu uma longa gargalhada irônica. - Eu faço meu próprio destino. Adeus. Chaz continuou a subir a escada, sem olhar para trás. Storm balançava a cabeça negativamente, enquanto Cassie acariciava sua mão. Era o que faltava, tanta gente no mundo e Mars Pirate Knight tinha de ser Chaz! Como as coisas eram irônicas! - Estávamos muito bem só nós sete e acho que ele não fará falta mesmo... - Nunca diga isso, Storm - disse Loki calmamente, mas com um tom de voz absolutamente sério. - Todos vocês oito precisam um do outro imensamente, muito mais do que podem imaginar. Se vocês são oito, e não sete, seis ou cinco, é porque é necessário que oito lutem juntos. Como a principal milícia de Serenity pode ter um sentimento de desunião como esse em seu interior? Cuidado com isso... E se ele voltar recebam-no com os braços abertos. - Pelo menos ele derrotou aquele monstro - disse Storm enquanto colocava a namorada entre seus braços. - Pelo menos estamos todos bem, koibito - Cassie retribuía o carinho pegando a outra mão do namorado. Storm deu um beijo de leve na testa da namorada, enquanto Ishtar observava toda a cena atentamente. No cérebro da garota, alguns dados pululavam: 1 - Eles estavam de mãos dadas. 2 - Eles estavam abraçados. 3 - Ele a beijou na testa. 4 - Ela o chamou de “koibito”. A conclusão óbvia foi declarada aos berros: - CASSIE-CHAN E STORM-KUN ESTÃO NAMORANDO! CASSIE-CHAN E STORM-KUN ESTÃO NAMORANDO! CASSIE-CHAN E... Jack, fazendo um bem enorme à humanidade, colocou sua mão sobre a boca da companheira, impedindo-a de berrar mais um pouco. O casal olhava para ela e para os companheiros completamente vermelho, enquanto Rika não disfarçava algumas risadinhas, Ryo ruborizava-se um pouco e Sarah sorria de leve, observando a alegria alheia. Percebendo que os jovens estavam distraídos, Íris disse: - Está com medo que as coisas se repitam, por isso falou que o espírito de desunião nunca deve rondá-los e não devem pensar em excluir um ou outro? - De certa forma, sim. Eu me sentiria o pior dos seres se as coisas acontecessem de novo e não pudesse fazer nada. - Confio neles, acho que nunca mais um erro como a Elite se repetirá. Loki observava Jack segurando Ishtar forte para que não começasse a berrar de novo, enquanto os outros riam da cena. Disse: - Ela não parece em nada com seu ego passado... - Fisicamente elas são iguais! E fico imaginando como será quando for um pouco mais velha, já que é linda nessa idade... - Íris disse. - E onde já se viu uma venusiana que não seja maravilhosa, Íris? Mas é a típica beleza de se ter medo... - Beleza de quem é capaz de seduzir meio mundo com os olhos... Ou seja, não só a beleza física, mas uma personalidade igualmente sedutora, coisa que adquirirá com o tempo... espero. - É engraçado como eles são parecidos com os egos passados em aparência! - Não só assim... Storm continua um líder, Cassie continua vendo o futuro, Ryo continua um estrategista, Rika continua muito linda e lutando muito bem, além do gênio difícil de sempre... - Como Aurora... - Esqueça Aurora, ela está morta e Rika nunca aceitaria ser como ela, apesar de sê-la! - Está na hora de ir, nos vemos em breve. - Ja ne, Loki-sempai... Loki desapareceu tão de repente quanto aparecera, dessa vez sob o olhar de Íris. Fora só citar o nome de Aurora que ele se arrepiara todo, será que ele nunca se conformaria que ela estava morta, há milênios? O jeito era deixar para lá, como sempre. E, voltando ao raciocínio sobre egos presentes serem como egos passados, não pôde deixar de pensar que Chaz tinha o mesmo gênio de Irídio, o orgulho ferrenho não iria permitir que aceitasse sua nova situação imediatamente, mas acabaria aceitando os fatos. E com certeza iria voltar, quando menos esperassem, talvez. *** Passos arrastados ecoavam por uma sala fechada, enquanto um olhar felino se perdia por entre os monitores, esperando que notícias já milimetricamente calculadas e esperadas chegassem. Não podia deixar de se sentir como uma carrasca, mandara Smelly para sua sentença de morte, mas as coisas não podiam ser feitas de maneira diferente e, se servisse como consolo, os níveis de energia tinham aument \n'; document.write(barra); } } changePage(); *** O palácio real de Júpiter, com seus mais de quinhentos cômodos, enormes salões e magníficos jardins, era uma das pérolas da arquitetura do Milênio de Prata. Naquela que era a residência da família real joviana e sede do governo do maior planeta do Sistema Solar, estavam registrados eras e reinados, dinastias e nobres, desde tempos que de tão distantes só eram recordados em canções e lendas até o presente, com aquele que deveria herdar o trono do planeta. Em um dos belíssimos salões de baile, decorado com os mais belos lustres e algumas estátuas representando antigos reis, alguns jovens treinavam técnicas de luta. Um desses jovens era o terceiro filho do atual rei, aquele que fora recentemente nomeado Jupiter Pirate Knight e logo mudaria-se dali para sempre, indo morar no Forte de Halley, onde era a base de sua milícia e o principal centro de vigilância do Milênio de Prata. Duas belas jovens o acompanhavam: suas companheiras Pluto e Uranus Pirate Knight, ainda ofegantes pela luta que travaram pouco antes: - O que acham de irmos ao Paraíso de Calisto? É um dos melhores bares das redondezas- disse Storm, o príncipe de Júpiter. - Por nós...- disse Cassandra sorrindo, lendo nos olhos da melhor amiga a confirmação do que queria. - Precisamos nos trocar agora... Você nos dá licença, ne, Storm?- Aurora disse, enquanto puxava a amiga pela mão. - Claro... E também tenho de me trocar, não concordam? Storm apenas observava enquanto as amigas se afastavam trocando risinhos e cochichos. Não precisava ser um gênio para saber que Aurora não havia lutado a sério, tendo diminuído sua força ao máximo para perder de propósito, no intuito de animar Cassandra fazendo-a vencer. Sem sombra de dúvida a uraniana devia estimar bastante a amiga para agir nesse sentido, pois era de conhecimento geral que a jovem princesa era possuidora de um orgulho ferrenho... e de uma força espantosa. Seria uma boa adversária, quando tivessem a oportunidade de lutar! A princesa de Urano andava com os braços dados com sua melhor amiga pelos corredores do palácio, enquanto procuravam o quarto para se trocarem. Conversavam animadamente, afinal eram muitos assuntos para pôr em dia! - Então, está gostando de treinar aqui? - Mas é claro! Storm está sendo atencioso e paciente comigo, acho inclusive que estou evoluindo no que diz respeito a combates! Quem sabe não serei digna de meu cargo agora... A plutoniana abaixou os olhos, enquanto Aurora mudava de assunto. Tinha outra coisa para tratar com ela: - E ele? Demonstra algum... sentimento? - Bom, ele é muito atencioso comigo, sempre quer saber como estou me sentindo ou se preciso de alguma coisa, além de conversarmos todas as noites e dele ser muito carinhoso. Mas isso pode ser só o comportamento de um amigo, ou mesmo de um anfitrião educado. - E você? Já falou para ele, já demonstrou seus sentimentos? - Não, mas... como você sabe?- Cassandra ruborizou-se. - Ora... Parece que está escrito na sua testa! E, além disso, somos amigas, não somos? Tem muitas coisas sobre você que não precisam ser ditas com palavras para que eu saiba delas. Cassandra sorriu para a amiga enquanto entravam no quarto para se arrumarem juntas. Queriam estar juntas pelo máximo de tempo possível, pois logo estariam novamente distantes e provavelmente se reencontrariam apenas na cerimônia de nomeação, que ainda demoraria um pouco para acontecer. Não podia haver felicidade maior do que essa, a de duas amigas que depois de muito tempo se encontravam e queriam estar juntas. Algum tempo depois, Storm esperava suas hóspedes no hangar do palácio, onde as naves esperavam para serem utilizadas. Se fosse um adepto da pompa, luxo e antigos protocolos, certamente seria acompanhado por dois ou mais criados, porém queria ir sozinho com suas companheiras, tentando talvez parecer um jovem absolutamente normal tentando passear com duas amigas. Deu uma última ajeitada em sua casaca verde-oliva e na gola de mesma cor de sua camisa, enquanto observava a porta. Poucos instantes depois, suas hóspedes a atravessaram e os olhos de Storm não se cansaram de apreciar a beleza das duas. Se a beleza de Aurora remetia ao pecado, ao desejo de possuí-la compartilhado por absolutamente toda a população masculina da Federação, uma beleza capaz de ofuscar todas as estrelas do céu por fazer sua dona brilhar mais do que qualquer uma, uma beleza que poderia até mesmo ser considerada perigosa a de Cassandra era a beleza da simplicidade e delicadeza. A plutoniana lembrava uma delicada boneca, que poderia quebrar com qualquer toque mais desastrado, ou mesmo um lírio desabrochado em uma noite gelada, onde o frio poderia facilmente queimá-lo. Era a beleza do botão de rosa que se destacava do verde da roseira, uma beleza singela. Era engraçado comparar as duas, eram como as duas faces opostas que se completavam, talvez por isso fossem tão boas amigas. Aurora soava como o inferno e suas perdições, Cassandra remetia ao paraíso e tudo o que de mais sagrado poderia haver. Até mesmo a forma como estavam vestidas poderia confirmar os pensamentos: a plutoniana usava um vestido negro de alças, preso até o busto e com uma saia de véus negros que parecia fazê-la flutuar, além dos lindos cabelos loiros presos apenas com dois prendedores discretos; enquanto a uraniana usava um vestido longo vermelho muito justo de gola alta, com um grande decote que deixava pouco a imaginar, além de duas fendas laterais que deixavam a perfeição de suas pernas à mostra e uma pequena parte de um short preto. Seus cabelos cor-de-rosa estavam presos em uma trança e estava linda, maravilhosa. - Vocês estão lindas essa noite- disse Storm, enquanto abria o compartimento de entrada da nave. - É para sermos dignas de tão elegante acompanhante- respondeu Cassandra, enquanto acomodava-se em uma poltrona. Para se locomoverem de um lugar para outro no Milênio de Prata, seus habitantes usavam de naves espaciais, mas que também eram adaptadas para o trânsito em cidades, mesmo que fosse bastante mais comum usar meios de transporte mais simples. Essas naves podiam atingir velocidades estrondosas, muitas vezes até mesmo chegando perto da velocidade da luz, apesar de andar a uma velocidade tão alta ser veementemente proibido e reprimido. Porém, o que importava era que tais naves podiam cumprir grandes distâncias em pouco tempo, inclusive fazendo o percurso de Plutão ao Sol em quatro meses, o que era fantástico! Porém, algumas milícias e grupos de guerreiros ainda desenvolveram uma técnica de transporte ainda mais eficiente, o teleporte. Porém, esse era difundido apenas entre poucos devido à complexidade e grande quantidade de energia necessária para que ocorresse. Alguns minutos depois, a nave sobrevoava a lua de Calisto, onde se localizava o tal bar. As luas de Júpiter eram bastante habitadas, sendo que a maioria da população do planeta vivia nelas. Era como uma pequena Federação dentro da própria Federação, coisa que não acontecia em Saturno, onde a maioria das luas era inóspita, ou Urano, também planetas de muitos satélites. Talvez, inclusive, a unidade entre Júpiter e suas luas era maior do que o reinado central e os planetas do Milênio de Prata. A capital de Calisto, Héricles, era uma grande cidade mesmo para os padrões jovianos, apesar de suas maiores construções terem no máximo três andares e a maior delas ser uma grande arena, onde jovens de todas as partes iam treinar as mais puras técnicas de combate jovianas, apesar de que as reais e únicas eram conhecidas por poucos. Em uma rua não muito movimentada, localizava-se um sobrado onde funcionava o famoso bar que atraía milhares de visitantes, o Paraíso de Calisto, que oferecia o melhor da comida e bebida de todo o Milênio de Prata e não seria exagero afirmar ser o melhor bar da Via Láctea. Em horários noturnos, a clientela era quase totalmente de jovens ou pessoas que queriam relaxar com música, bebida e diversão. Apesar de uma proibição velada a jogos de azar, era de conhecimento geral que as mesas de apostas do Paraíso eram as mais concorridas do Milênio de Prata e muitas fortunas foram adquiridas e perdidas no interior daquela casa de arquitetura simples, porém agitada por dentro. Storm estava de braços dados com suas duas acompanhantes, conduzindo-as para dentro da casa. Havia muitas mesas, a imensa maioria ocupada e com animadas conversas, enquanto alguns garçons passavam de um lado para o outro carregando a maravilhosa bebida típica joviana, bastante apreciada e famosa por todo o Milênio de Prata. O jovem guerreiro encontrou uma mesa vazia e enquanto cavalheiramente ajudava suas companheiras a se sentarem, pedia três doses da bebida: - Espero que gostem, é a especialidade da casa. Cassandra e Aurora trocaram sorrisos entre si antes de sorrirem novamente para Storm em retribuição a sua gentileza de levá-las até ali. Pouco tempo depois, as jovens vislumbraram as taças colocadas em sua frente, contendo um líquido púrpura. O joviano que as acompanhava simplesmente disse, enquanto erguia sua taça: - À nossa saúde. - À nossa saúde- repetiram as duas jovens. Após beber um gole do conteúdo de seu copo, Storm continuou a conversa: - Essa bebida é típica de Júpiter e é conhecida por muitos nomes, de região em região, assim como tem suas variações, sem que a base da receita original seja alterada, mas é comumente designada como “Néctar”. Espero que gostem... Os olhos púrpuros de Aurora perdiam-se no interior do copo de mesma cor, enquanto pensamentos atravessavam sua mente como flechas em campo de batalha. Era bom estar ali com sua amiga, aquela que era a pessoa que mais amava em todo o Universo, muito mais até mesmo do que algum de seus irmãos... Desejava tanto que Cassandra fosse feliz, que tivesse o amor do homem que amava! Bom, não precisava ser um gênio para perceber os olhares trocados, as palavras ditas, as entrelinhas. Ele a amava sim, para que se preocupar? Porém, o que precisava acontecer para que os dois finalmente ficassem juntos, um empurrão final na maior vontade de ambos? Depois de muita conversa e muitas doses, embaladas por uma suave melodia executada no piano, Aurora e Storm já dominavam o salão com algumas risadas um pouco altas, causadas por um ligeiro excesso de bebida. Cassandra, pouco tolerante a álcool, tinha bebido pouco e apenas observava os amigos em suas conversas sem muita lógica. O joviano segurava displicentemente uma taça e bebericava enquanto dizia: - Podíamos ser nomeados logo, não acham? Vivo me perguntando por que está demorando tanto, deve ser a pressão de algum protocolo idiota, como sempre acontece nesses casos. - Com certeza... - disse Aurora. - Como se um protocolo não tivesse sido quebrado, um plebeu na Ordem! Um protocolo quebrado a mais, um a menos, quem se importa? Quero é ser nomeado logo. - Antes a quebra de um protocolo do que um inútil imprestável como você que está lá apenas por conveniência. A única reação de Storm foi olhar para trás, na direção de onde a voz vinha. Aurora encarregou-se de apresentar o jovem de olhar arrogante e pose que demonstrava o mesmo sentimento, vestido de forma displicentemente despojada, pouco atrás da mesa: - Irídio... - Quebras de protocolos, quebras de protocolos... Como se o sangue real fosse de fazer vocês guerreiros! Não olha para essa garota aí? - Irídio apontou o dedo para Cassandra. - Se fosse por justiça, por uma escolha justa dos realmente preparados, agora ela estaria jogada fichando criminosinhos de ações imbecis em Plutão... - E você acha que vai mudar o mundo assim, na agressão gratuita? As coisas sempre foram assim, será que mudarão somente porque o senhor detentor de toda a inteligência e sagacidade marcianas não concorda com elas?- Storm rebateu. - Parem com essa discussão imbecil- disse Aurora um tanto irritada. Três rapazes que acompanhavam o marciano, com pose e olhares refletindo a mesma arrogância, deram um passo a frente, intrometendo-se no espaço da discussão. Um deles tomou a palavra: - Não se intrometa em briga de homem, gracinha... Por que não vem comigo para momentos realmente inesquecíveis? Deve ter habilidades muito superiores a simplesmente se meter onde não é chamada... Deixe-me, pelo contrário, me meter onde sou chamado! O engraçadinho não teve muito tempo para rir do próprio trocadilho, pois instantes depois de dizer a frase, sentiu o salto do sapato da uraniana em seu rosto e essa não foi uma sensação muito agradável... - Quem você pensa que é para se meter com meu amigo, hein, vagabunda?- Disse um dos outros rapazes. - ENGULAM SUAS PALAVRAS, IDIOTAS! - Aurora, não...- Cassandra disse de leve, enquanto levantava-se da cadeira. O chamado da jovem não adiantou muita coisa, já que Aurora distribuía voadoras e socos nos dois rapazes, o que era bastante injusto, já que dois contra um não era o que podia se chamar de luta justa... Não para os dois que apanhavam como nunca. Do outro lado da mesa, Storm e Irídio continuavam a discussão ideológica, com palavras agressivas e o início de uma briga, já que alguns empurrões e safanões já eram trocados, além de palavras mais violentas do que flechas. Cassandra apenas observava, sem poder fazer nada. O que bebida em excesso e gênios fortes não faziam? O jeito era torcer para não acabarem quebrando tudo, ainda mais que uma rodinha já se erguia ao redor do grupo e s turma do deixa-disso não tinha coragem de intrometer-se... Com Aurora e Storm brigando, poderia sobrar pancada para alguma alma bem-intencionada. O terceiro acompanhante de Irídio aproximou-se de leve da plutoniana, com um sorriso cínico no rosto. Era bonitinha a namorada do grandalhão nervosinho, enquanto ele estava distraído bem que poderia se divertir um pouco com ela... - E você, lindinha, o que acha dessas brigas? - Eu...- Cassandra assustou-se ao perceber que alguém segurava seus braços e aproximava-se de seu corpo -... eu... eles têm que parar com isso, mas o que posso fazer para impedir? - Impedir? Para que se posso me divertir estando aqui com você enquanto isso?- O marciano disse essas palavras aos sussurros, próximo ao ouvido da jovem, que sentia o corpo gelar. - Sha... sha... sha.... sha… sha… - Nada disso, minha flor, não vai invocar golpe nenhum. O acompanhante de Irídio colocou uma de suas mãos sobre os lábios da plutoniana, enquanto com a outra invocava uma pequena barreira de fogo para deixar os curiosos longe do casal. Após assegurar-se que não seria interrompido, com toda a força que podia deitou sua vítima na mesa. Cassandra, por sua vez, com a boca tapada, só podia debater-se, numa tentativa inútil de escapar do ataque do jovem. Porém, sentiu um tapa forte no rosto e ouviu o som de sua saia sendo rasgada: - Não reaja senão será muito pior para você... Todo o corpo na plutoniana tremia, temendo o futuro mais do que próximo. Por que tinha de ser fraca, por que não lutara, se soltara de sua imobilização e saíra dali? Por que era fraca, por que era uma péssima guerreira, que nem sabia se auto-defender? Continuava a mexer-se, porém sentia que seu agressor segurava violentamente suas pernas com o corpo e seus braços com uma das mãos, enquanto com a outra preparava-se para tirar a própria calça. - Storm, por favor...me ajuda... me tira daqui... O pedido de Cassandra foi feito em forma de um leve sussurro, entre as lágrimas apavoradas da violência que se fazia iminente. Porém, Storm tinha ouvido seu chamado, seu apelo, seu pedido. O joviano não ouviu os desaforos de Irídio, mas apenas esquivou-se o mais rápido que pôde e segundos antes do marciano que acompanhava o guerreiro consumar sua violência, tirou-o de cima da mesa com um safanão, jogando-o longe. Não se importava com o fogo, com os curiosos ou mesmo de fugir de uma briga: queria apenas ver a mulher que amava segura. O agressor levantou-se, conjugando uma bola de fogo, porém Storm foi mais rápido. Seus olhos estavam cegos pelo ódio, toda a sua energia e vontade de fazer com que aquele desgraçado pagasse tomava todo o seu corpo, toda a sua alma: - Thundering beam... Nunca as palavras foram ditas com tanto sadismo, com tanta vontade de atingir um alvo, de fazê-lo pagar caro pela audácia! O agressor foi eletrocutado rapidamente, uma dose não o suficiente para matá-lo, mas para deixá-lo desacordado por alguns meses e fazer com que repensasse toda a sua vida até então quando acordasse... - Covarde, idiota covarde! Foge da briga para ajudar essa sua namoradinha fracote e imbecil a se livrar de um problema que ela mesma criou! É porque sabe que perderia os argumentos, é para assumir o grande covarde filho da mãe que é! Storm simplesmente olhou para Irídio com os olhos relampejando de ódio, enquanto os dedos de uma de suas mãos acariciavam de leve o rosto da garota apavorada que tinha no colo: - Aquele idiota não te fez nenhum mal, não é? Porque se fez... Se ele tocou em um único fio do seu cabelo vai pagar com a vida! - Não... Você... você me salvou...a tempo... Obrigada... Storm andava devagar, aproximando-se do cinturão de curiosos, rapidamente puxando Aurora pelo braço enquanto ela dava um último empurrão em um de seus companheiros de briga que estava demorando para cair: - Vamos, a nossa noite aqui acabou. Aurora lançou um olhar de ódio para Irídio, que ainda gritava o quanto o mundo e principalmente os nobres eram arbitrários e imbecis, enquanto Storm gentilmente falava com o gerente do bar, preocupado com os prejuízos, para mandar a conta para o palácio real joviano. Pouco depois, ele depositava a ainda trêmula e assustada Cassandra em uma das poltronas da nave, enquanto sentava-se de leve a seu lado, com a mão sobre seu rosto: - Desculpe-me pela noite horrível... - Não... não peça desculpas... - Queria saber o que posso fazer para conseguir seu perdão... - Não se preocupe com isso... Aconteceu apenas o inevitável. - Enquanto estiver comigo, nunca ninguém vai profanar um único fio de seu cabelo, minha deusa, nem que eu tenha de morrer para isso. Após alguns instantes de silêncio que pareceram séculos, os lábios do casal uniram-se em um beijo, talvez o evento mais esperado da vida daqueles dois jovens, muito mais do que as batalhas ou a nomeação que estava por vir. Como um ato aparentemente tão simples poderia tornar-se tão mágico e tão desejado, sendo capaz até de ecoar pela eternidade? Aurora, do lado de fora, apenas observava e sorria. Não se importava de ter sido um tanto esquecida pelo casal, mas valia a pena: pelo menos para alguma coisa aquela noite tinha valido a pena, para fazer com que os dois finalmente externassem os sentimentos e se unissem. *** Storm acordou assustado, rapidamente passando a mão pela testa para recolher algumas gotas de suor. Sabia que seu sonho era uma lembrança, apenas um reflexo de um passado muito distante, mas não era nem um pouco agradável ver sua amada sofrendo. Não... a promessa estava de pé, absolutamente nunca permitiria que alguém profanasse um único fio de cabelo de sua deusa. Nunca. Nem que tivesse de morrer para isso. O rapaz olhou para o lado, apenas para ver que Jack, seu companheiro de quarto, dormia tranquilamente. Era melhor mesmo voltar a dormir, teria um longo dia de trabalho pela frente, dia esse que certamente começaria com um telefonema para saber se sua amada passara bem a noite... Storm ajeitou os travesseiros antes de deitar-se novamente, cobriu o peito desnudo com o lençol e adormeceu tranquilamente, desejando ao invés de lembranças agitadas, sonhar com sua bela e doce Cassie... Alguns quilômetros distante do apartamento aonde Storm residia, uma garota também acordava um pouco assustada com o sonho que tivera. Era uma sensação estranha, nunca sentida antes em toda a sua vida! Era como se seu sonho fosse mais do que simples imagens, mas refletisse algo realmente importante para a sua vida, algo que realmente importasse e fizesse diferença. A garota tirou uma mecha de cabelo cor-de-rosa que caía sobre seus olhos, enquanto retomava o fôlego perdido pouco antes com a estranha sensação: - Então isso foi uma lembrança... Rika esfregou os olhos por alguns instantes, pouco antes de olhar para o relógio que havia em sua cabeceira e concluir que estava no meio da madrugada, o melhor que tinha a fazer era dormir novamente e esperar pelo dia seguinte, um cansativo dia de aula, como sempre. Um novo dia se erguia no céu, entre algumas nuvens brancas e fofas como algodão e um brilhante céu azul. Bastante propício para o primeiro dia em uma nova escola, poderiam dizer alguns. Na mansão da família Tenoh, a mesa preparada para o café da manhã trazia uma enorme variedade de pães, porém em alguns pratos, um café da manhã um pouco mais tradicional: arroz com legumes. Havia um convidado à mesa, esperando com uma certa ansiedade por uma garota em especial, que mexia com seus sentidos e sentimentos. Será que ela estava ansiosa por seu primeiro dia de aula? Sarah entrou na sala de refeições um pouco apressada, enquanto terminava de abotoar a camisa branca de seu uniforme, com o casaco azul apoiado no braço. Ao olhar para a amiga, a única reação de Jack foi comentar: - Você é a colegial mais linda que já vi... - Obrigada - disse Sarah enquanto vestia o casaco azul. - Estou me sentindo estranha com essa roupa! - Largue de besteira, está linda... Sarah sorriu rapidamente, enquanto sentava-se em uma das cadeiras. Disse: - Obrigada por aceitar o convite de tomar o café da manhã conosco hoje. - Tenho mesmo que procurar um emprego, não é? - Jack respondeu sorrindo. - Não quero viver eternamente com o dinheiro que meus pais mandam, além disso já tenho que entrar no ritmo, o cursinho começa semana que vem. - Você quer mesmo tentar entrar pra Toudai? Eu o chamaria de maluco... - Pode ser difícil, mas não é impossível. E qual seria o mal de sonhar o melhor para si mesmo? Sarah abaixou os olhos, encarando algum grão de arroz perdido em seu prato. O melhor para si mesmo... Não era exatamente seu ideal, ou o que pensava com mais frequência, se é que pensava nisso. Sentia-se vegetando, vivendo apenas por não ter escolha, lutando apenas por não ter escolha. Inclusive, sentia uma certa inveja dos companheiros que acreditavam e seguiam um ideal. - Ohayo gozaimasu, minna-san! Rika aproximava-se da mesa, com um lindo sorriso no rosto. Estava de bom humor naquela manhã, por nenhuma razão específica, apenas por achar o dia lindo! Jack não pôde deixar de comentar: - Animada hoje, hein? - Sim, pois terei uma nova colega em minha escola, mesmo que ela seja de uma classe mais avançada. Sarah, percebendo que o assunto era com ela, levantou os olhos tristes de seu prato e deu um sorriso leve, apenas para mostrar-se um pouco animada com a mudança de sua rotina, apesar de no fundo não se importar muito com a mudança. Podia observar Rika comendo animada enquanto conversava com Jack, também animado, mas não conseguia conversar algo de dentro de seu coração, não conseguia ser mais do que um vegetal. - Vamos? - Rika disse, levantando-se e pegando sua mochila do chão. Jack levantou-se sorrindo e dizendo algo sobre Rika estar tão animada por Sarah, enquanto a morena levantava-se calada, pegando delicadamente sua pasta do chão. Se tinha de ir para a escola, seguir sua nova vida, era bom estar preparada e animar-se um pouco, também. Uma cama com delicados detalhes esculpidos na madeira, um tanto grande para uma pessoa que dormia sozinha, mas com um colchão muito confortável, assim como lençóis aconchegantes e travesseiros fofos. Uma garota loira mexia-se levemente sobre os lençóis, enquanto sorria por encontrar-se no meio de um doce sonho. Porém, o soar do telefone fez com que a garota acordasse, enquanto suas mãos tateavam o criado-mudo em busca do barulhento aparelho: - Moshi moshi? - Bom dia, senhorita... Liguei apenas porque queria ser o primeiro hoje... - Primeiro? - Cassie sabia que era Storm do outro lado, reconhecera a voz, mas o que ele queria dizer com primeiro? - Sim, o primeiro... a dizer o quanto é linda. - Seu bobo! - Cassie tinha um sorriso no rosto e o típico olhar de garota apaixonada. - Dormiu bem essa noite? - Fazia tempo que não tinha sonhos tão doces... Além disso, precisava mesmo descansar depois da confusão de ontem! - Só liguei mesmo para te dar um bom-dia, agora tenho de ir. Ja ne! - Ja ne, koibito... A jovem cientista desligou o telefone vendo estrelas de felicidade por todos os cantos de seu quarto, enquanto entre um sorriso bobo repetia a última palavra dita. Como amava seu querido Storm, como desejava que ele estivesse bem, até mesmo melhor do que ela mesma se fosse necessário! Porém, não era exatamente em amor que tinha de pensar naquele dia. Queria um emprego, não era mesmo? Não sentia-se uma inútil estando trancada em casa com todo o conhecimento que possuía? Tinha pagado um preço caro por sua liberdade, perdera sua moral como cientista. Porém, o que importava? Não conseguiria um emprego como pesquisadora, mas sua formação a permitia fazer outras coisas, como fazer medicamentos. Um par de olhos verdes arregalou-se, como se tivesse descoberto o maior dos segredos do mundo: fazer medicamentos! Por que nunca tinha pensado nisso? Se fazia tanta questão de trabalhar assim, por que não procurar emprego em uma farmácia de manipulação? Não se sentia entediada estudando controle genético de pragas? Não queria mudanças? Essa era a hora de mudar e, enquanto não pudesse voltar a ser uma pesquisadora, iria fazer remédios... Alguns alunos entravam apressados na sala de aula, enquanto os últimos minutos antes do sinal do início das aulas soar decorriam com tranquilidade. Alguns alunos aproveitavam para colocar assuntos em dia, outros para terminarem algum último detalhe de alguma lição de casa, outros para lerem algum livro ou fazerem qualquer outra coisa. Rika entrava calmamente em sua classe, cumprimentando gentilmente alguns colegas, sofrendo com uma pequena cena de ciúme vinda de Kyoko e recebendo um caloroso bom-dia de Akio, como sempre. Ao colocar a mochila sobre a carteira, percebeu que Ryo não estava em seu lugar habitual, mas de pé, algumas carteiras adiante, ao lado de uma menina: - Agora você substitui essa equação nessa e corta essa variável com esta aqui... - Muito obrigada, Kage-san, sem sua ajuda não saberia resolver esse problema! - Disponha, Saito-san. Ryo levantou-se com um sorriso no rosto e ajeitou os óculos cuidadosamente antes de desejar um bom-dia para Rika, que o observava sorrindo. Ele estava finalmente se aproximando um pouco dos colegas, será que estava vencendo sua timidez? Esperava imensamente que sim. - Esses exercícios são fáceis depois que se pega o jeito- disse ele sorrindo. - Você é muito bom em física, Ryo-kun, para você até o exercício mais difícil do livro seria fácil! - Que é isso, Rika-chan, nem sou tão bom assim - Ryo sorria sem jeito. - A propósito, hoje é o primeiro dia de Sarah-san aqui, não é? Gostaria de saber o que ela vai achar da escola. Como de praxe para alunos transferidos, Sarah estava na entrada da sala, esperando pelo início das aulas, para ser apresentada aos novos colegas pelo diretor do colégio. A jovem trocava algumas palavras com o senhor simpático que exercia essa função, mas nem prestava muita atenção no que estava a dizer. Pouco depois do soar do sino, a aula da classe denominada como 2-B foi interrompida por leves batidas na porta, enquanto uma jovem morena um pouco nervosa entrava em sua nova classe: - Hoje vocês ganharão uma nova colega. Essa é Sarah Granger e será colega de classes suas a partir de hoje. Espero que dêem as boas vindas para ela. A professora, bastante simpática e sorridente, deu as boas vindas à nova \n'; document.write(barra); } } changePage(); - Até quando vamos continuar andando, senhorita Aneurocito? A pergunta era feita por um monstro vestindo um sobretudo vermelho, afastando um pouco os olhares curiosos. A aspirante a general andava um pouco mais à frente, observando as pessoas e construções atentamente atrás de um par de óculos escuros, pensativa e distante. Cumpriria a ordem de seus superiores, mesmo que a contragosto, e pensava em alguma maneira de se vingar. Podia despertar a Mestra, mas como? Precisaria de uma dose extra de energia, ou de alguma ainda mais especial do que a humana e não tinha nenhuma idéia de como consegui-la sem chamar a atenção e fazer com que fosse eliminada, como certamente ocorreria quando terminasse o serviço. - Precisamos encontrar algum lugar movimentado para atacar - Aneurocito respondeu, sem virar-se. - Pode ser aquele lugar ali? - Midiz apontou para uma grande área cercada por um muro, pouco à frente. - Claro, só temos de fazer uma pequena avaliação do lugar antes de atacarmos. Mas como estou mesmo com pressa acho que não deveríamos perder tempo. Vamos. Subordinada e superior tomaram impulso e, usando uma marquise como plataforma, pularam rapidamente entre as paredes até sumirem, provocando algumas expressões de espanto em alguns passantes, porém não o suficiente para parecerem mais do que simples ilusões... Um jovem que destoava do padrão local pela cor morena da pele e pelos cabelos negros um tanto longos passeava pela rua movimentada calmamente, enquanto observava vitrines e pessoas, pensativo. Conseguira um emprego em uma livraria e não haveria lugar no mundo onde gostaria mais de trabalhar! Daria atenção especial a cada uma das obras, como se fossem as mais puras e finas obras de arte do planeta, o que não deixavam de ser. Como era bom sentir o papel entre as mãos, o cheiro da impressão recente, sentir a textura da capa! Não pôde deixar de sorrir ao pensar que talvez fora contratado por, além dos conhecimentos gerais adquiridos às custas de muita curiosidade e leitura, ser um tipo exótico, que chamava a atenção. Será que as garotas que o olhavam, outras que trocavam risadinhas e até as mais ousadas que lhe abriam lindos sorrisos não percebiam que ele tinha consciência de seu sucesso? Garotas deviam gostar de rapazes morenos, de cabelos azulados constantemente presos e um rabo e roupas de estampas de inspiração indiana, além e alguns anéis em seus dedos que não podiam passar despercebidos. Porém... por que uma garota especificamente, aquela que amara assim que vira, não prestava atenção, sempre forçava uma frieza misturada a uma enorme mágoa, tinha aquela tristeza constante nos olhos? Ao olhar para frente, não pôde deixar de dar uma pequena risada: estava próximo ao quarteirão ocupado pela escola de Sarah, Rika e Ryo. Seu novo emprego ficava perto dali e não era por coincidência, mas pela sorte de estarem precisando de um atendente na livraria próxima! Como queria dividir com ela a felicidade de ter conseguido um emprego, mesmo que esse não fosse muito rentável! O som de um sino fez com que Jack olhasse para o relógio, concluindo ser a hora do almoço. Esperava que Sarah se alimentasse direito, ela não comera direito no café da manhã, além disso, uma aluna vegetariana poderia ser olhada com uma certa ressalva pelos atendentes do refeitório... A vontade de vê-la o dominava, tornando-se um desejo tão insuportável que fez com que o jovem esquecesse-se até da própria fome para correr até uma das grades do colégio, na esperança vã de vê-la nem que fosse por um só instante. A região de Juuban possuía áreas bastante arborizadas, dando um clima refrescante ao bairro. O outono começava a apresentar-se e as folhas já começavam a amarelar e cair, preparando um tapete natural que enfeitaria as ruas dentro de algumas semanas, mas por enquanto o ambiente se refrescava e até mesmo alegrava com as árvores. Uma delas, um pouco mais alta do que as demais, com uma copa folhosa, era um famoso ponto de referência para alunos perdidos ou atrasados: sua escola estava na direção da árvore. Era possível ver todo o grande pátio da escola de ensino médio do bairro e inclusive, alguns alunos mais ousados algumas vezes tentaram usá-la como meio de fuga. Porém, não era para fugir da escola que um rapaz alto e forte estava ali, calmamente olhando para o pátio abaixo de si. Estava com sede de diversão, além de seu dia anterior ter sido estressante e completamente fora do comum, e certamente dias saídos de contos nonsense não eram agradáveis ou mesmo lhe traziam algum lucro. Imagine só... ele, um guerreiro de título idiota, uniforme fora de moda e companheiros imbecis! Nada melhor do que alguns relógios e carteiras para esquecer toda aquela baboseira de Pirate Knights, era só esperar a hora da saída. Um sino soou marcando a hora do almoço, acompanhado de um longo suspiro do jovem. Ainda faltavam algumas horas, mas não podia negar que sentia um certo aperto no coração ao ver jovens de sua idade, ou mesmo mais novos, se divertindo, com amigos e uma longa e feliz perspectiva de vida... A maioria dos alunos tinha o hábito de levar seu almoço de casa e comer sob a sombra de árvores, ao ar livre. Porém, um grupo de alunos tinha por hábito sentar-se em um dos pátios internos, em alguns bancos próximos à entrada de um jardim de inverno. Esse grupo podia ser considerado uma panelinha, porém já há muito tempo as coisas estavam mudando e a chegada de uma novata foi o estopim de uma mudança de atitude por parte de todos, agora um tanto mais receptivos. - Kyoko-chan não veio almoçar conosco hoje... - a frase foi dita por uma garota baixinha e magricela, com os longos cabelos negros presos em um rabo-de-cavalo. - Ela tem sua razão, Naru-chan... - disse Kitsune. - Eu sei...- respondeu a garota, enquanto olhava disfarçadamente para uma garota de cabelos rosados que conversava animadamente com uma menina de cabelos ruivos curtos. - Minna-san, vocês não sabem da última! - Ktisune atraiu a atenção da roda de colegas para si. - Dizem que entrou uma menina nova no segundo ano... - Eu a vi hoje de manhã, estava ao lado do diretor. É linda, muito linda... - disse um dos meninos da roda. Ryo voltou o olhar para Rika, acompanhado de uma risadinha. Estava adorando seu primeiro almoço com os colegas desde quando começara a estudar, além disso era engraçado ouvir que já havia comentários sobre Sarah sendo que ela mal chegara! Outro garoto puxou a palavra: - Se temos Tenoh-san e agora uma outra garota linda entrou na escola, significa que estamos com sorte! - Quem sabe não entra mais mulher bonita aqui.... - disse um garoto um tanto alto e magrelo. - DAISUKE! Está insinuando que sou feia? - A garota ruiva com que Rika conversava anteriormente perguntou, enciumada. - Não quis dizer anda, Yui-chan... - foi a resposta envergonhada do garoto. Rika saboreava calmamente um pedaço de carne, enquanto ria por dentro com a conversa dos colegas. Eles eram tão gentis, inclusive algumas meninas quando não estavam com Kyoko tornavam-se amistosas e simpáticas. Tinha um pouco de medo de ser completamente malhada pelas costas, mas gostava de sua nova classe e seus novos colegas, nunca sentira-se tão animada e entrosada! - E vocês não sabem de uma coisa, dizem que ano que vem teremos um novo professor de matemática, já que Watsuki-sensei vai se aposentar... - Kitsune disse. - Você é a garota mais bem-informada desse colégio, Tsubasa-san - disse Ryo, sorrindo. - Eu sei - foi a resposta acompanhada de uma risada. Porém, um grito fez com que o clima descontraído do almoço fosse quebrado. Estava havendo alguma coisa no pátio externo, não era um simples grito de descontração ou brincadeira sem-graça, havia pânico naquela voz! Rika levantou-se em um pulo, assim como seus colegas, correndo para um dos portões do colégio. As reações, quando os estudantes viram a cena que decorria, foram variadas: Kitsune colocou a mão sobre os lábios, assustada; Naru gritou de medo e Yui abraçou-se a seu namorado, apavorada; enquanto Rika puxava Ryo pelo corredor procurando por uma sala vazia, aproveitando a distração dos colegas. Precisavam agir, pela segurança de seu colégio e seus colegas! Um monstro, com a aparência semelhante a uma garota, cravava suas presas em um garoto, levando-o à morte depois de algum tempo, enquanto os estudantes corriam em desespero tentando fugir. Mas o que era aquilo, um monstro no colégio? O desespero se estampava nos rostos jovens, antes preocupados apenas com estudos e conversas, agora com sua própria vida. Tinham de fugir se não queriam ter o destino de alguns de seus colegas, que jaziam sem vida no chão. Enquanto os estudantes corriam apavorados para os portões de saída, uma garota loira vacilava ao ser puxada pelo namorado, alto, magro e com longos cabelos vermelhos: - Akio, deixei meu brinco cair e você me deu no meu aniversário... - Deixa o brinco para lá, Kyoko, temos de sair daqui depressa! - Mas... ai! - Kyoko tropeçara, fazendo com que Akio parasse e o monstro os visse, indo na direção do casal. - Vamos Kyoko, levante-se! Se sairmos vivos dessa, juro que te dou cinco pares de brincos... Kyoko levantou-se apavorada, enquanto o monstro estava a apenas mínimos metros de distância. Akio gritou, enquanto todo o seu corpo tremia apavorado pela iminência do ataque: - Vai, Kyoko! Sei lutar, lembra-se, vou tentar enrolá-lo e escapar! - Mas, Akio... - ANDA LOGO! Kyoko, apavorada, saiu correndo, enquanto Akio colocava-se em guarda, preparando-se para correr o mais rápido que pudesse. Midiz sentiu os olhos brilharem a olhar para sua nova vítima, esse garoto devia ter bastante energia para se sugar! Akio recuava, trêmulo de medo, enquanto Midiz aproximava-se devagar e assustadoramente. Graças a um passo em falso, o presidente do clube de esgrima caiu no chão, apavorado, enquanto sentia a morte próxima. Fechou os olhos, esperando pelo fim da sua vida, enquanto um pequeno filme de tudo o que vivera até então passou diante de seus olhos, enquanto todos os sonhos e projetos de futuro eram despedaçados. Midiz aproximava-se devagar, não querendo deixar que sua vítima fugisse, querendo sugar o máximo de energia do rapaz magrelo, quando sentiu uma pancada em suas costas. Ao virar-se, pôde deslumbrar uma garota de amarelo, com as mãos na cintura e expressão ameaçadora: - Deixe-o em paz, agora! Você terá de passar por cima de meu cadáver se quiser tocar em um só fio de cabelo de qualquer aluno desse colégio. Vamos, monstro covarde, isso é um duelo! Aneurocito, enquanto esperava o plano imposto realizar-se, passeava pelos jardins externos do colégio, pensativa em relação à sua situação. Tinha de arranjar um plano de vingança, o mais rápido que conseguisse, aqueles idiotas tinham de pagar muito caro por desfazerem o trato! A Mestra podia dar conta deles, ah se podia, mas como poderia despertá-la? A aspirante a general observava com cuidado para o prédio da escola, olhando pelas janelas as carteiras e mesas, cheias de material escolar. Humanos eram interessantes, que maneira estranha de se ensinar! Não parecia com sua escola no Castelo, apesar dos aspectos em comum... Uma garota, sentada calmamente em uma cadeira enquanto olhava um livro dentro de uma sala, chamou a atenção de Aneurocito. Era uma menina bonita e parecia tão concentrada no que estava fazendo! Parecia interessada, com a atenção completamente presa pelas páginas do livro. Um grito fez com que a aspirante a general se encolhesse no peitoril da janela, para continuar a acompanhar a cena: - Granger-san, Granger-san! Temos de sair daqui, tem um monstro no colégio! Pode... pode soar absurdo, pode parecer um trote para uma novata, mas é sério! Vamos embora! Sarah levantou os olhos de sua leitura, assustada. Um monstro? Então isso explicava os gritos ouvidos enquanto lia! E, se era uma guerreira, tinha de fazer algo para ajudar... - Pode ir, não precisa se preocupar comigo. - Mas, Granger-san! - A garota tinha lágrimas nos olhos. - Já estou indo, agora vá! Deve ter alguém no banheiro, vá lá avisar para que essas pessoas saiam! A garota saiu da sala e, após alguns instantes e verificar que se encontrava sozinha, Sarah tocou o pingente que trazia no pescoço e disse: - Poder de Netuno, VENHA A MIM! Aneurocito observava assustada enquanto a bela garota se transformava em guerreira, num misto de espanto e surpresa. Era sorte demais, estava no lugar certo na hora certa! E o que era melhor, tinha ouvido seu nome: Granger-san! Os deuses estavam de bom humor, ou eram muito justos, isso sim! Um sorriso brotou em seus lábios, enquanto uma risada se espalhava pelo jardim. Não queria uma vingança, um plano genial e perfeito? A semente estava lançada, agora era germiná-la! Prólogo // Capítulo 01 // Capítulo 02 // Capítulo 03 // Capítulo 04 // Capítulo 05 // Capítulo 06 // Capítulo 07 |
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